O Fugitivo

O homem que vemos agora é Monsieur Hellis. Hellis nasceu em França, mais precisamente na região de Borgonha, em Janeiro de 1895. A vida deste homem está marcada pela presença exaltada de um dom: desde muito cedo que fora capaz de descrever a realidade com a minúcia de um ourives e a eloquência de um escritor. “Os acontecimentos falam por si”, costumava dizer, “eu apenas traduzo para a linguagem dos homens os seus aromas, a sua aparência secreta e as sensações que esses mesmos acontecimentos deverão causar, quando incidem na vida”.
Quando conheceu o amor, por exemplo, ao lado daquela que seria a sua companheira de sempre, Hellis descreveu-o assim: “Anne-Marie é o verdadeiro acontecimento da minha vida. O seu aroma frutado, com um toque de frutos vermelhos, prospera nos lábios e persiste ao fundo da garganta como um rubi. Toda a sua alma é maravilhosamente encorpada, e dos seus olhos brilhantes desprende-se não raras vezes uma lágrima generosa e feliz.”
O facto de se ter interessado pela enologia foi menos uma escolha consciente, do que uma conspiração do destino. Toda a sua vida Hellis perseguiu a verdade escondida nos acontecimentos. Por isso, ao dirigir os processos de elaboração do vinho, proveniente da produção que herdou da família, encontrou aí uma forma insuspeita de filosofar e, ao mesmo tempo, de retirar os benefícios que o seu dom lhe oferecia de bandeja.   
Com pouco mais de 35 anos, a vida corria-lhe de feição, mas o mundo preparava-se surdamente para aquele que seria talvez o pior acontecimento do século, e para o qual dificilmente haveria palavras possíveis: a guerra. Nesse momento, o poeta do vinho e dos acontecimentos emudeceu. Sentindo que o seu dom lhe fugia para latitudes mais amenas, Hellis, calado, áspero e ausente, pegou na mão da mulher e partiu atrás dele.  
Ao chegar a Portugal, o dom parou diante de um exuberante vinhedo e Hellis voltou a incorporá-lo e a pronunciar palavras belas. A Europa estava a ser fustigada por indescritíveis acontecimentos.



O Fugitivo

Um conceito para vinhos que acontecem. Por condições únicas em anos únicos. Por uma inquietação constante, um desafio a todas as normas. Poderiam ser chamados “vinhos de colecção”, mas são sobretudo vinhos para serem encontrados. E acima de tudo, descobertos.

Garrafeira Branco


País Portugal
Região D.O.C. Dão
Sub Região Serra da Estrela
Clima Continental Seco
Solo Pobre
Tipo Granítico
Castas Ampla gama de castas autóctones (Encruzado, Uva Cão, Bical, Terrantez, etc.)
Ano da Colheita 2013
Vinificação Tradicional com início de fermentação em cortimenta e fim de fermentação em barricas usadas de 600Lt
Estágio 1 ano em barrica e 1 ano em garrafa
Consumo Imediato (com grande potencial de evolução em garrafa)
Gastronomia Queijos da Serra da Estrela, peixes e pratos de carne
Garrafa 0 ,75 L
Enólogo Paulo Nunes

Sabendo que os vinhos brancos do Dão envelhecem nobremente em garrafa, e que a denominação “Garrafeira” é histórica na região, retomamos o estudo das técnicas ancestrais para vinificar um branco de longevidade a partir do “field blend” de vinhas velhas da Casa da Passarella.